Não existe um limite de idade para alguém se tornar vegano

O período de 40 dias da Quaresma é um tempo de reflexão para os cristãos, inspirado pelos 40 dias que Jesus terá passado no deserto, preparando-se para o seu apostolado.

Durante a Quaresma, os cristãos são encorajados a prestar serviço aos outros e a renunciar a algo de que normalmente desfrutam, de modo a concentrarem-se no seu desenvolvimento espiritual.

Enquanto líder espiritual de 1,2 mil milhões de católicos em todo o mundo e figura inspiradora para muitos outros, se o Papa Francisco adoptasse uma dieta vegana durante a Quaresma (e espero que mais além!) estaríamos perante uma declaração poderosa sobre a nossa capacidade de combater problemas ambientais como as alterações climáticas e a desflorestação, reduzir o sofrimento dos animais destinados à produção alimentar, combater a insegurança alimentar global e promover a nossa própria saúde.

No entanto, tem havido preocupações por parte de alguns círculos sobre se uma dieta vegana é saudável para adultos mais velhos como o Papa Francisco, hoje com 82 anos.

Embora haja uma abundância de opiniões desinformadas sobre este assunto na blogosfera, como sempre, o melhor a fazer para responder a esta pergunta é olhar para a ciência já disponível.

A Academia de Nutrição e Dietética (AND) é o organismo profissional que representa os dietistas registados e outros profissionais da alimentação e nutrição nos Estados Unidos da América. A sua posição em relação a dietas vegetarianas, baseada em quase 120 referências da literatura científica, indica claramente:

“As dietas vegetarianas devidamente planeadas, incluindo as veganas, são saudáveis, nutricionalmente adequadas e podem proporcionar benefícios de saúde na prevenção e tratamento de certas doenças. Estes regimes alimentares são adequados para todas as fases do ciclo de vida, incluindo a gravidez, a lactação, a infância, a adolescência, a idade adulta mais avançada e os atletas.”

E não parece ser assim tão difícil elaborar uma dieta à base de plantas “adequadamente planeada”. De acordo com AND:

Os aportes de nutrientes de vegetarianos mais velhos parecem ser semelhantes ou melhores do que os de não vegetarianos mais velhos.

Assim, de acordo com a mais recente investigação nutricional, uma dieta vegana bem construída não só fornece todos os nutrientes de que os idosos necessitam – incluindo proteínas, cálcio, ferro e zinco – como também ajuda a prevenir e tratar doenças crónicas a que nos tornamos mais propensos à medida que envelhecemos, tais como obesidade, doenças cardiovasculares, hipertensão arterial, diabetes tipo 2 e cancro do cólon e da próstata.

Por exemplo:

  •        Os veganos têm o menor risco de se tornarem obesos ou de apresentar excesso de peso, em comparação com qualquer outro subgrupo alimentar – vegetarianos, pescatarianos, flexitarianos e omnívoros – e a adopção de uma dieta à base de plantas ajuda os que já têm excesso de peso a atingir um peso corporal saudável.

 

  •        Uma dieta vegana reduz o risco de doenças cardiovasculares – de longe, a principal causa de morte em pessoas com mais de 45 anos – e é a única dieta que alguma vez demonstrou revertê-la, mesmo em pessoas a quem havia sido falada a necessidade de um bypass cardíaco ou angioplastia!

 

  •        As dietas à base de plantas reduzem a pressão arterial, o colesterol e substâncias relacionadas, especialmente as substâncias consideradas nocivas, como o colesterol LDL e a apolipoproteína B.

  •        As pessoas que seguem uma dieta 100% vegetal reduzem para metade o risco de desenvolver diabetes tipo 2, e esta dieta vegana pode ajudar as pessoas já diagnosticadas com diabetes tipo 2 a gerir melhor a sua condição e, em muitos casos, mesmo a revertê-la.
  •        Os veganos têm o menor risco de desenvolver cancro em geral, ao passo que uma dieta vegana reduz o risco de desenvolver cancro da próstata em 35 por cento entre os homens caucasianos.

 

Até mesmo a dor lombar crónica, como a dor ciática que aflige o Papa Francisco, pode ser prevenida e tratada com uma dieta à base de plantas.

Como?

Quando consumimos produtos de origem animal, a placa aterosclerótica – uma mistura de gordura, colesterol, cálcio e outras substâncias encontradas no sangue – cresce no revestimento interior dos nossos vasos sanguíneos. Com o passar do tempo, essa placa acumula-se junto das artérias e endurece-as, causando a condição conhecida como aterosclerose.

A aterosclerose resulta na redução do fluxo sanguíneo para os tecidos “a jusante” da placa. Dependendo da localização da placa, uma pessoa pode sofrer uma variedade de sintomas diferentes, incluindo:

  •        Quando as artérias que irrigam o coração são afectadas pela aterosclerose, pode ocorrer angina – dor no peito causada por esforço ou stress – e ataque cardíaco.

 

  •        A aterosclerose nos vasos sanguíneos que abastecem o cérebro resulta em declínio cognitivo, ataques isquémicos transitórios (AIT, ou “mini-acidentes vasculares cerebrais”) e AVCs.

 

  •        A doença vascular periférica resulta de aterosclerose em vasos sanguíneos localizados no exterior do coração e do cérebro. Causa dor e fadiga – especialmente durante o exercício – nas pernas e braços, e também pode afectar os rins, estômago e intestinos.

 

  •        A disfunção eréctil, ou impotência, ocorre quando as artérias que irrigam o pénis estão ocluídas (parcial ou totalmente bloqueadas) pela placa aterosclerótica.

 

  •        E por fim, as placas ateroscleróticas que ocluem as artérias da coluna vertebral causam degeneração e eventualmente herniação dos discos que agem como amortecedores de choque entre cada vértebra, bem como danos aos nervos da coluna vertebral. Discos e nervos danificados levam, por sua vez, à dor ciática – um tipo grave de dor lombar e nas pernas que pode ocorrer em qualquer lugar ao longo do curso do nervo ciático, desde a coluna lombar até o pé. As pessoas com os níveis mais elevados de colesterol – fortemente ligados à ingestão de mais produtos animais – têm um maior risco de sofrer dores nas costas devido a hérnias discais. E aqueles com artérias parcialmente ou completamente bloqueadas pela placa aterosclerótica são mais de oito vezes mais propensos a sofrer de dor lombar crónica, uma das principais causas de incapacidade no mundo ocidental.

Como se pode ver, os idosos podem usufruir de múltiplos benefícios ao adoptarem uma dieta à base de plantas. Mas há algum risco?

Vejamos:

 

  •        A capacidade de absorver a vitamina B12 diminui com a idade, devido a uma condição chamada “gastrite atrófica”, que afecta entre 10 e 30 por cento dos idosos. Consequentemente, o Instituto de Medicina dos EUA recomenda que todos os indivíduos com mais de 50 anos de idade tomem um suplemento de vitamina B12. A suplementação com vitamina B12 é indispensável para todos que seguem uma dieta vegana, e os idosos podem precisar de uma dose maior do que os jovens.

 

  •        À medida que envelhecemos, a nossa necessidade de energia (quilojoule/caloria) diminui, ao passo que a nossa necessidade de micronutrientes, como vitaminas, minerais e antioxidantes, aumenta. É vital que os idosos escolham alimentos vegetais densos em nutrientes, como vegetais de folhas verdes, outros vegetais coloridos, frutas, leguminosas e grãos integrais, com uma ingestão moderada de nozes e sementes, em vez de se alimentarem de alimentos com menor densidade de nutrientes, como pão e massas.

 

  •        Os mais idosos costumam tomar vários medicamentos para doenças como a hipertensão arterial, diabetes e hipotireoidismo. Uma dieta à base de plantas pode reduzir a necessidade de muitos desses medicamentos, e pode tornar alguns deles completamente desnecessários. Os idosos devem informar o seu médico de que mudaram de dieta para que possam ser monitorizados de perto, e a sua dose de medicação deve ser rapidamente ajustada para evitar uma tensão arterial excessivamente baixa, hipoglicemia, sintomas de hipertiroidismo e outras consequências adversas do excesso de medicação.

 

  •        Um aumento súbito das fibras provenientes de alimentos vegetais integrais – especialmente leguminosas (feijões, ervilhas e lentilhas), que são fontes importantes de proteínas e micronutrientes numa dieta à base de plantas – pode causar inchaço e desconforto abdominal, especialmente em indivíduos que haviam seguido uma dieta pobre em fibras há décadas. O aumento gradual da ingestão de alimentos com elevado teor de fibras evita esta situação, uma vez que permite que a microbiota intestinal, que desempenha um papel importante no manuseamento de fibras e outros hidratos de carbono indigestos provenientes de alimentos vegetais, se adapte à mudança na dieta.

 

Existem tantos benefícios para a saúde ao adoptar uma dieta à base de plantas em qualquer idade, e ao tornares-te vegano durante a Quaresma, tudo de que estarás a abdicar é a crueldade animal e um risco acrescido de problemas de saúde!

 

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Robyn Chuter é uma nutricionista vegana de New South Wales, Austrália, especializada em ajudar as pessoas a reverter doenças graves e crónicas tais como doenças auto-imunes, diabetes tipo 2, doenças cardíacas e síndrome da fadiga crónica, bem como alimentação emocional e dependência alimentar, recorrendo a uma dieta à base de plantas. É fundadora da Empower Total Health e esteve recentemente entre os primeiros profissionais de saúde australianos a obter a certificação de Lifestyle Medicine Practitioner da Australasian Society of Lifestyle Medicine.

 

Foto: Plant Based News

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