O abate livre de crueldade existe?

Enquanto consumidores, ouvimos frequentemente o termo “abate sem crueldade” em relação às indústrias da carne, dos ovos e dos lacticínios, mas o termo “sem crueldade” significa “ter ou demonstrar compaixão ou benevolência”. É difícil ver como isso pode descrever o acto de tirar deliberadamente a vida a outro ser vivo.

“Abate sem crueldade” é um termo de marketing – e um oximoro – que fornece um tipo de “refúgio psicológico” que nos permite imaginar que o animal que estamos a comer não sofreu durante os seus últimos momentos de vida.

De certa forma, a necessidade crescente dos produtores de carne, ovos e lacticínios de se posicionarem no mercado como “sem crueldade” indica uma mudança social na forma como as pessoas vêem os animais hoje em dia. A empatia, dizem os especialistas, está ligada à nossa genética – e com o advento das redes sociais e inúmeras exposições da indústria, é cada vez mais difícil negar as realidades sombrias da pecuária.

No actual clima social, em constante mudança, muitas pessoas colocam a questão: existe realmente o abate livre de crueldade?

Os proponentes da indústria geralmente descrevem o “abate ou matança sem crueldade” como a prática de deixar um animal inconsciente ou sem dor, sofrimento ou angústia até que a sua morte ocorra. Em teoria, o animal será atordoado antes de ser sangrado, e portanto fica inconsciente antes de morrer.

No entanto, sabemos que, na prática, nem sempre esta norma sombria é cumprida, e inúmeros animais plenamente conscientes vêem as gargantas rasgadas, são alvejados na cabeça, são gaseados, electrocutados ou pior ainda. E mesmo quando o atordoamento é praticado, muitas vezes falha, requer múltiplas tentativas e causa um terrível sofrimento por si só.

Ex-trabalhadores de matadouros e fábricas de gado têm prestado declarações assombrosas e reais sobre este processo de “abate sem crueldade”. Muitas vezes, estes ex-funcionários da indústria também sofrem impactos psicológicos a longo prazo, resultantes da exposição contínua a níveis extremos de violência, sofrimento e morte.

Naturalmente, a própria definição de “abate sem crueldade” é intrinsecamente deficiente, pois pressupõe que um animal não valoriza a sua vida.

Tal como nos dizem estes trabalhadores – os animais lutam pelas suas vidas até ao último suspiro. Eles sentem medo, dor, sofrimento e perda, muitas vezes além da nossa mais terrível imaginação. Dada a oportunidade, estes seres gentis e inocentes também lutarão para proteger os seus amigos e os seus filhos.

Desta forma, o “abate sem crueldade” assenta na falácia de que os animais não são seres conscientes. No entanto, em 2012, um grupo líder de cientistas assinou a Cambridge Declaration on Consciousness, que afirma que os animais (incluindo vertebrados e invertebrados) são conscientes. Isto significa que os animais são sensíveis, podem experienciar o que lhes sucede e têm estados mentais que podem ser positivos ou negativos para eles, enquanto indivíduos.

Isto é importante porque a capacidade de um animal de viver experiências positivas e negativas é o que o torna vulnerável a danos. Como observa a Animal Ethics, “há razões poderosas para concluir que isso é o que deve importar quando se trata de conceder a alguém consideração moral e não discriminar esse ser”.

Um animal individual valoriza a sua vida tanto quanto tu ou eu. E, em última análise, não existe uma forma “humana” de matar alguém que não quer morrer.

Outra lacuna fatal em torno do “abate sem crueldade” é que o conceito assume que a única obrigação moral do ser humano é proporcionar a um animal uma morte “rápida” – então e as condições em que estes animais são mantidos durante as suas vidas?

Dados dos EUA sugerem que mais de 99% dos animais de criação passam as suas vidas em “Operações de Alimentação Animal Concentrada” (CAFOs.) O tratamento horrível de animais em tais explorações industriais está bem documentado e acontece em países de todo o mundo.

Os frangos criados industrialmente são mantidos em abrigos restritos, com pouco ou nenhum acesso ao ar livre. A maioria dos porcos criados industrialmente são mantidos em “celas”, ou em gaiolas tão pequenas que nem sequer se podem virar. As vacas criadas industrialmente podem passar algum tempo ao ar livre, mas ainda estão confinadas a áreas de alimentação sem acesso a pastagens ou gramíneas. Aos patos, é-lhes negada água de banho adequada durante toda a sua vida – que é sempre mais curta do que deveria.

Não há nada de “humano” na negação do acesso de um animal ao sol, ou na supressão dos seus comportamentos naturais. As práticas de criação concebidas para maximizar o aumento de peso (ou a produção de ovos e leite) também fazem com que os animais apresentem sinais notáveis de stress, saúde precária e mesmo morte prematura.

Como disse recentemente o actor Jerome Flynn, de Game of Thrones: “As vidas [dos animais] são miseráveis desde o momento em que nascem, até ao dia em que os camiões chegam para os levar para a matança. Sim, no final de todo este sofrimento, são levados para o matadouro, onde as visões e os cheiros a sangue e entranhas são de revirar o estômago.”

Nada de “humano” acontece num matadouro.

A maioria das pessoas não quer prejudicar os animais. Aliás, uma sondagem de 2017 realizada pelo The Guardian revelou que 75% dos adultos americanos acreditam que costumam comer carne, leite e ovos “de animais que são tratados humanamente”.

Quando compreendemos que “abate sem crueldade” é pouco mais do que um termo de marketing, podemos ver que mesmo os consumidores que se preocupam com o bem-estar dos animais estarão provavelmente a contribuir para o seu sofrimento. Felizmente, cada indivíduo pode ajudar a terminar este ciclo – e todos nós podemos começar hoje!

As unidades de criação industrial e os matadouros só existem devido à procura dos consumidores. Em vez de apoiarem práticas desumanas, assumam o compromisso e experimentem o veganismo. Ao reduzir ou eliminar a carne, ovos e lacticínios do teu prato, podes ajudar a acabar com o sofrimento dos animais, enquanto desfrutas de novos e deliciosos planos de refeições à base de plantas.

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