Chegou a hora de aumentar os impostos da carne?

Por Kate Fowler

Quando vemos o preço da carne, até achamos que ele reflete os custos reais de produção, mas o verdadeiro valor dos produtos de origem animal é bem maior e frequentemente omitido. Isso inclui, por exemplo, os gastos com a nossa saúde, uma conta que o sistema público de saúde acaba pagando. E ainda tem a despesa que resulta da prevenção, em escala global, à morte por meio da resistência a antibióticos. Por fim, não podemos nos esquecer do enorme prejuízo que a pecuária causa ao meio ambiente.

Para combater esses custos significativos – e camuflados -, políticos, cientistas e os famosos think tanks têm proposto a seguinte solução: aumentar o imposto da carne para inibir o seu consumo.

Isso, no entanto, não é nenhuma novidade!

No Brasil, boa parte do valor cobrado pelo cigarro corresponde a impostos. De uma forma ou de outra, podemos dizer que isso acaba funcionando como um mecanismo para coibir o consumo desse produto tão prejudicial à saúde.  

Essa estratégia também é aplicada no caso das sacolinha plásticas, que já são cobradas em muitos supermercados. Outro exemplo é a cidade de São Paulo, onde existe um rodízio de placas de automóveis com o intuito de reduzir o congestionamento. Quem não respeita o rodízio, tem que pagar multa. Portanto, são medidas que levam os cidadãos a mudar de comportamento e, consequentemente, a reduzir os impactos ambientais.

Quem estabelece esses impostos é o governo, que conta com economistas encarregados pela análise do cenário nacional com o objetivo de reduzir, aumentar ou criar novos encargos fiscais. Sabendo disso, não há dúvidas de que a carne também deveria fazer parte desse grupo de produtos que podem ser coibidos por meio dos impostos.

Os reais custos da carne

Em 2015, a Organização Mundial da Saúde divulgou pesquisas classificando a carne processada como cancerígena. A carne vermelha também foi apontada como “potencialmente cancerígena”.

Enquanto a carne vermelha processada está fortemente associada ao câncer de intestino, o consumo de carne vermelha acima do recomendado – um hábito comum em muitos lugares – está ligado ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares, derrames e diabetes.

Para você ter noção, pesquisas realizadas no Reino Unido mostram que para cobrir os gastos com saúde por conta do consumo da carne vermelha, seria preciso cobrar impostos de 20% sobre a carne vermelha não processada e um imposto de 10% sobre produtos processados. Em muitos lugares, isso significaria duplicar o preço do bacon e das salsichas tendo em vista o prejuízo que esses produtos causam à saúde humana.

Ainda assim, esse preço não representaria o verdadeiro custo da carne.

Os custos da resistência aos antibióticos e das doenças zoonóticas

O Professor Tim Lang, do Centro de Política Alimentar, e o Professor Mike Rayner, do Departamento de População Saudável da Universidade de Oxford, declararam que a carne não só aumenta a intensidade das doenças não transmissíveis, como também potencializa a resistência antimicrobiana. Isso porque uma quantidade significativa de antibióticos é dada aos animais para mantê-los vivos durante semanas ou meses até que cheguem ao dia do abate.

Em 2018, a Organização Mundial de Saúde divulgou dados sobre o desenvolvimento de resistência a antibióticos que revelaram “níveis elevados” de resistência para uma série de infecções bacterianas graves em países de elevado e baixo rendimento.

A Dra. Margaret Chan, Diretora Geral da Organização Mundial de Saúde, afirmou que “estamos perante uma era pós-antibiótica, em que muitas infecções comuns deixarão de ter cura e voltarão a matar sem controle”. Ela descreveu a resistência antimicrobiana como um “tsunami em câmera lenta”. Já o Banco Mundial estima que a resistência aos antibióticos poderá vir a custar, por ano, 1 trilhão de dólares aos cofres mundiais após 2030.

E não podemos nos esquecer das doenças zoonoses, aquelas causadas por agentes patogénicos e transmitidas de animais para humanos (raiva, febre amarela, leishmaniose e etc.).

Pelo menos 61% dos agentes patogénicos humanos são provenientes de animais. Por esse motivo, não é nenhuma surpresa que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura considere essas doenças “grandes ameaças para a sociedade”. O consumo de carne pode transmitir a gripe aviária, o antrax, a salmonela e a E. coli – doenças que causam um sofrimento terrível e podem ser fatais. Embora nem todas as zoonoses provenham de animais criados pela indústria alimentícia, as despesas por conta desse tipo de doença foi avaliado em mais de 20 bilhões de dólares entre 2002 e 2012.

Os custos da pecuária para o meio ambiente

E o que dizer do custo da pecuária para o meio ambiente? Como incluímos esse valor no preço que pagamos no mercado pelos produtos de origem animal?

Sabemos, com certeza, que a indústria da carne prejudica a natureza. Ela contribui consideravelmente para as mudanças climáticas, pois emite mais gases poluentes do que todos os veículos do planeta juntos.

Sabemos que a indústria da carne é umas das principais responsáveis pelo desmatamento, pois ela vive em uma busca incessante por mais e mais terras. E com a extermínio dos ecossistemas, perdemos populações inteiras de animais. Por esse motivo, a agricultura é apontada como a principal causadora da redução das populações de animais selvagens. Nos últimos 40 anos, elas caíram 60%. Esse prejuízo ainda não foi calculado em valor monetário, mas sabe-se que o desmatamento tem custado, mais ou menos, 5 trilhões de dólares.

É óbvio que as coisas não têm apenas valor financeiro! Por isso, quantificar as perdas ambientais é um grande desafio. O fato é que o consumo de produtos animais só aumenta essa dívida.

Soluções para combater os prejuízos da carne

Embora essas perdas não possam ser calculadas, sabemos que existem formas de ajudar. Várias evidências levaram os cientistas da Universidade de Oxford a afirmar que tornar-se vegano (não consumir produtos de origem animal) é, certamente, a “melhor maneira de reduzirmos nosso impactos no planeta Terra, não só em relação aos gases do efeito de estufa, mas também em relação à acidificação global, à eutrofização, ao uso da terra e ao consumo de água”.

Mas como é que encorajamos as pessoas a adotarem um estilo de vida sem produtos de origem animal? E como respondemos aos que afirmam que o aumento dos impostos sobre a carne afetaria as famílias e agricultores mais pobres?

A melhor solução seria destinar o dinheiro dos impostos a programas de subsídio voltados para a produção de alimentos sustentáveis e que ajudassem os agricultores a adotar melhores práticas. Os agricultores são adeptos à diversificação para atender às tendências do mercado, além de haver um número crescente de antigos criadores de animais que mudaram para o cultivo de alimentos vegetais. Isso significa que nenhum agricultor precisa perder o seu sustento. Afinal, os veganos também necessitam dos agricultores.

Mesmo sabendo que a redução – ou, de preferência, a exclusão – dos produtos de origem animal de nossas vidas trará benefícios significativos e abrangentes, parece que a maioria de nós ainda precisa de um empurrãozinho para conseguirmos fazer o que é certo.

Lembre-se: sempre soubemos que as sacolinhas fazem mal para o meio ambiente e, mesmo assim, as levávamos para casa. Isso foi começar a mudar de fato depois que começaram a cobrar por elas.

Cada vez mais, pesquisadores consideram inevitável a criação de um “imposto sobre o pecado” da carne de vaca e de porco. A nossa proposta, no entanto, é ir além e estender esse aumento de impostos a qualquer tipo de carne, laticínios e ovos. Afinal, a resistência aos antibióticos, as zoonoses e as doenças cardiovasculares não estão associadas exclusivamente às carnes vermelhas.

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Kate is the UK Campaign Manager for Million Dollar Vegan. Kate has been vegan for 25 years. She has worked on many media and political campaigns, including exposing the suffering of farmed animals at slaughter.

  1. World Health Organization, ‘Q&A on the carcinogenicity of red meat and processed meat’, October 2015 [https://www.who.int/features/qa/cancer-red-meat/en/]
  2. Damian Carrington, ‘Taxing red meat would save many lives, research shows’, The Guardian, 6 Nov 2018 [https://www.theguardian.com/environment/2018/nov/06/taxing-red-meat-would-save-many-lives-research-shows]
  3. lbid
  4. Sarah Knapton, ‘”Meat tax” which would almost double price of sausages should be brought in to save lives, say health experts’, The Telegraph, 6 Nov 2018 [https://www.telegraph.co.uk/science/2018/11/06/meat-tax-would-almost-double-price-sausages-should-brought-save/]
  5. Prof Tim Lang and Prof Mike Rayner, ‘A meat tax need not hit the poor’, The Guardian, 10 Jan 2019 [https://www.theguardian.com/environment/2019/jan/10/a-meat-tax-need-not-hit-the-poor]
  6. World Health Organization, ‘High levels of antibiotic resistance found worldwide, new data shows’, 29 Jan 2018 [https://www.who.int/mediacentre/news/releases/2018/antibiotic-resistance-found/en/]
  7. World Health Organization, ‘World Health Day 2011’, 6 April 2011 [https://www.who.int/mediacentre/news/statements/2011/whd_20110407/en/]
  8. World Health Organization, ‘WHO Director-General briefs UN on antimicrobial resistance’, 18 April 2016 [https://www.who.int/dg/speeches/2016/antimicrobial-resistance-un/en/]
  9. Madlen Davies, Callum Adams and Claire Newell, ‘The true cost of antibiotic resistance in Britain and around the world’, The Telegraph, 29 March 2018 [https://www.telegraph.co.uk/news/2018/03/26/almost-died-true-cost-antibiotic-resistance-britain-around-world/]
  10. World Health Organization, ‘Neglected zoonotic diseases’ [https://www.who.int/neglected_diseases/diseases/zoonoses/en/]
  11. Food and Agriculture Organization of the United Nations, ‘The monetary impact of zoonotic diseases on society’, 2018 [http://www.fao.org/3/i8968en/I8968EN.pdf]
  12. Clare Narrod, Jakob Zinsstag and Marites Tiongco, ‘A one health framework for estimating the economic cosy of zoonotic diseases on society’, Ecohealth. 2012 Jun; 9(2): 150-162.
  13. Damian Carrington, ‘Humanity has wiped out 60% of animal populations since 1970, report finds’, The Guardian, 30 Oct 2018 [https://www.theguardian.com/environment/2018/oct/30/humanity-wiped-out-animals-since-1970-major-report-finds]
  14. Matt Chorley, ‘$5,000,000,000,000: The cost each year of vanishing rainforest’, The Independent, 3 Oct 2010[https://www.independent.co.uk/environment/climate-change/5000000000000-the-cost-each-year-of-vanishing-rainforest-2096367.html]
  15. Damian Carrington, ‘Avoiding meat and dairy is the “single biggest way” to reduce your impact on Earth’, The Guardian, 31 May 2018 [https://www.theguardian.com/environment/2018/may/31/avoiding-meat-and-dairy-is-single-biggest-way-to-reduce-your-impact-on-earth]
  16. Rebecca Smithers, ‘England’s plastic bag usage drops by 85% since 5 charge introduced’, The Guardian, 30 Jul 2016 [https://www.theguardian.com/environment/2016/jul/30/england-plastic-bag-usage-drops-85-per-cent-since-5p-charged-introduced]
  17. Andrew Wasley, Fiona Harvey and Madlen Davies, ‘Serious farm pollution breaches rise in UK – and many go unprosecuted’, The Guardian, 21 Aug 2o17 [https://www.theguardian.com/environment/2017/aug/21/serious-farm-pollution-breaches-increase-many-go-unprosecuted]
  18. Damian Carrington, ‘Meat tax “inevitable” to beat climate and health crises, says report’, The Guardian, 11 Dec 2017 [https://www.theguardian.com/environment/2017/dec/11/meat-tax-inevitable-to-beat-climate-and-health-crises-says-report]

 

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